O homem, a pá e a árvore

Naquele restinho de madrugada fazia um frio razoável e o vento soprava de modo que o agasalho já não dava mais conta. A cidade ainda estava dormindo e a sombra das árvores se misturavam umas com as outras sufocando os poucos raios de luz existentes. Naquele lugar havia uma árvore em especial, muito maior e de raízes enrugadas. E como se não bastasse o seu cansaço acumulado ela ainda teve a sua solidão interrompida ao ser acordada de uma forma não muito sutil.

Um senhor com um vigor físico impressionante se aproximou dela arrastando um saco branco e começou a cavar com uma pá ao seu redor. E não firmava sua pá na terra simplesmente, ele a cavava como se aquilo fosse um dever a ser cumprido. Talvez, mais do que um dever... uma missão, impulsionada por grande peso na consciência. Pois, era exatamente isso que os seus olhos marejados e a sua boca seca de tanto puxar aquele ar frio denunciavam.

Logo o desespero tomou conta dos seus gestos, era evidente que aquela manhã ficaria para sempre na sua memória. Ele cavava como se quisesse enterrar uma simples lembrança, ou seu passado inteiro. Como se quisesse enterrar a si próprio ou um animal morto. Não seria exagero algum dizer que todo aquele esforço só se justificaria para sepultar um grande rival. Ou pior... para enterrar seu próprio filho.

Toda aquela explosão física trouxe um cansaço imediato, afinal não se tratava de um jovem de vinte anos. E quando o pior estava por vir, aquele homem simplesmente arrastou seu saco branco (com certa dificuldade) para perto daquela cova e o esvaziou de folhas secas preenchendo o buraco que tinha feito. Tudo o que ele queria era adubar aquela árvore e semear uma linda floreira para lhe fazer companhia. Em seguida pensou por alguns segundos e foi embora... como quem tinha muitas outras coisas para fazer.