Translação

O quão denso é um buraco negro? 

Venerado por Marte deus da guerra
Cultuado por Vênus deusa do amor

Um Sol entregue ao próprio ego
irracional, se perde em si mesmo
obsoleto, se desfaz por dentro
aspirando um vazio de sentimento

Tudo se materializa em saudade
em sucessivas dobras no espaço
remakes de cenas intermináveis
um origami de ideais inacabado

Os astros que já nos condenaram
pois tudo seria mais que breve
Tiveram que rever essa previsão
sublinhando: além da eternidade.


Conversas embaladas a vácuo
"Bom dia amor da minha vida!"
Eu me sinto assim, abandonado
mesmo quando estou de partida

Translação...

Me pego vidrado na sua órbita
Numa elipse mais que estreita
Sempre algo me puxa de volta
Por mais longe que eu esteja

Excluído, ex-planeta: Plutão
Tipo um estranho: ex-namorado

Só que não...


...

Carências

Uns vão para escola esperando pela merenda dada na hora do recreio, outros vão as missas de domingo esperando por um abraço despretensioso no rito final.

...

O homem, a pá e a árvore

Naquele restinho de madrugada fazia um frio razoável e o vento soprava de modo que o agasalho já não dava mais conta. A cidade ainda estava dormindo e a sombra das árvores se misturavam umas com as outras sufocando os poucos raios de luz existentes. Naquele lugar havia uma árvore em especial, muito maior e de raízes enrugadas. E como se não bastasse o seu cansaço acumulado ela ainda teve a sua solidão interrompida ao ser acordada de uma forma não muito sutil.

Um senhor com um vigor físico impressionante se aproximou dela arrastando um saco branco e começou a cavar com uma pá ao seu redor. E não firmava sua pá na terra simplesmente, ele a cavava como se aquilo fosse um dever a ser cumprido. Talvez, mais do que um dever... uma missão, impulsionada por grande peso na consciência. Pois, era exatamente isso que os seus olhos marejados e a sua boca seca de tanto puxar aquele ar frio denunciavam.

Logo o desespero tomou conta dos seus gestos, era evidente que aquela manhã ficaria para sempre na sua memória. Ele cavava como se quisesse enterrar uma simples lembrança, ou seu passado inteiro. Como se quisesse enterrar a si próprio ou um animal morto. Não seria exagero algum dizer que todo aquele esforço só se justificaria para sepultar um grande rival. Ou pior... para enterrar seu próprio filho.

Toda aquela explosão física trouxe um cansaço imediato, afinal não se tratava de um jovem de vinte anos. E quando o pior estava por vir, aquele homem simplesmente arrastou seu saco branco (com certa dificuldade) para perto daquela cova e o esvaziou de folhas secas preenchendo o buraco que tinha feito. Tudo o que ele queria era adubar aquela árvore e semear uma linda floreira para lhe fazer companhia. Em seguida pensou por alguns segundos e foi embora... como quem tinha muitas outras coisas para fazer.