Demolicar

Não é segredo para ninguém a fascinação da maioria dos homens por máquinas, especialmente por carros. E essa ligação começa desde muito cedo ainda quando somos crianças e ganhamos os nossos primeiros carrinhos de brinquedo. Dentro de um mundo imaginário as únicas regras que prevalecem são: ser o mais rápido e sobreviver a todo e qualquer tipo de colisão. Depois que a euforia e o cheiro de novo se vão é chegada a hora (mais legal) de desmontar o brinquedo e ver como seus componentes funcionam. Os mais inquietos criam um carro do tipo Frankenstein ainda mais poderoso e avassalador, já os que não tem sucesso nos seus projetos aguardam pelo próximo carrinho que lhes será dado de presente.

Na adolescência a coisa muda um pouco de figura e o estilo também ganha importância ao se pensar na ideia de um automóvel. Além disso, esse sonho é rondado por aquela antiga e sempre atual polêmica de que um carro luxuoso atrai muitas mulheres. Entre os intervalos das aulas no colegial esse debate esteve em pauta por muitas vezes e dificilmente se chegava num consenso. Se por um lado os garotos afloravam seu complexo de inferioridade alegando que um carro era mais do que suficiente para se conquistar a mulher ideal, por outro lado as garotas desmentiam ser interesseiras dizendo que um belo sorriso e uma boa conversa bastavam para encontrar o seu príncipe encantado.

Um pouco mais maduro percebi que existem pessoas de todos os tipos quanto a sua personalidade. Há mulheres que colocam como primeiro requisito para serem seduzidas um carro ou a condição financeira privilegiada do parceiro e outras porém que não abrem mão de uma pessoa companheira para amar ser amadas. Bem como, homens que acreditam que todos os seus problemas amorosos serão resolvidos quando tiverem as chaves do seu carro próprio (ou do seu pai) nas mãos e outros que entendem que esse tipo de conquista é sempre muito superficial e que não resulta numa felicidade duradoura. 

Um automóvel contribui e muito para independência do indivíduo, mas de nada adianta ele o possuir se a sua mente ainda não é autônoma.

O culto aos automóveis é de longe o maior inimigo da boa conduta dos motoristas. Uma realidade paralela em meio as regras de trânsito que nos é apresentada desde muito cedo e que nos faz esquecer qual é o verdadeiro sentido da palavra transitar. Ao invés de facilitarmos o tráfego encaramos todos na rua como nossos adversários, inclusive nós mesmos. Eu aproveitei essas férias de julho para fazer o Curso de Formação de Condutores (CFC) e um dos relatos do professor me fez refletir bastante. Ele contou que após cair de moto ficou com um certo receio de pilotar motocicletas e que certa vez um amigo lhe ofereceu uma dessas motos superesportivas para ele pilotar. Apesar dele se sentir tentado disse "não", pois sua vontade de testar potência máxima da tal moto era muito maior do que a sensatez que é necessária no trânsito.

O objetivo desse ensinamento foi demonstrar que, quando a emoção for maior que a razão essa não é a melhor hora para se conduzir um veículo. Justamente o oposto do que pregam os nossos comerciais onde não há emoção maior do que dirigir o seu próprio carro e acelerar ao máximo sem se preocupar com os limites de velocidade. Ok, acelerar é legal, talvez todo brasileiro encarne um pouco de Ayrton Senna quando ao dirigir. Mas, nada justifica esse comportamento tão violento no trânsito. Que sentido faz comprar um carro que atinge 250km/hr se as nossas rodovias de maior limite de velocidade permitem apenas 120km/hr? Status. Status dos que além de terem os veículos mais potentes têm os mais seguros também. Infelizmente, esse é um descaso social também, onde os mais pobres estão sujeitos a um risco maior de se machucar em colisões com carros de luxo. Sendo assim, representam a grande maioria das mortes no trânsito por não possuírem acesso a equipamentos essenciais de segurança que deveriam ser obrigatórios.

Uma possível solução seria ter mais critérios para se conceder habilitação para os condutores ou regularizar espaços e horário adequados para que essas energias sejam extravasadas com segurança. Devemos exigir isso das nossas autoridades públicas para que as nossas ruas possam ser mais civilizadas e diferentes de um demolicar urbano a céu aberto. Porém, enquanto isso não acontece vale respeitar os limites da via, do veículo e os nossos também.