Êxodo

Escravizar um indivíduo não é tarefa das mais fáceis, agora imagine uma população inteira. Para conter um possível sentimento de revolta de seus servos um senhor escravocrata necessita de certas condições/habilidades tais como: possuir algo que seja indispensável para a sobrevivência humana, ter intermediários fiéis e ambiciosos, fazer com que o povo a ser escravizado desconstrua os seus próprios valores culturais, se demonstrar piedoso quando necessário, oferecer gratificações (ainda que migalhas) para os servos mais dedicados, utilizar a violência diante de atos de desobediência e convencer os seus servos de que não há lugar melhor de se viver senão aquele. E principalmente, fazer isso de forma sutil para que os seus escravos não tenham consciência do quanto são explorados e que podem reverter a situação na qual se encontram.

Porém, quando esse povo começa adquirir consciência do quanto é explorado ele começa sonhar com a sua liberdade. E a primeira coisa que lhe vem na cebeça é fugir daquele lugar. E quando essa fuga ocorre em massa nós a chamamos de êxodo. Quem é que nunca teve vontade de um dia deixar tudo para trás e partir rumo à "não sei onde"? Pegar as malas e dizer tchau para todos? Ou ir impulsivamente apenas com as roupas do corpo? Com certeza muitos já pensaram, mas poucos o fizeram pois tiveram uma pitada de esperança de que as coisas iriam melhorar e que não seria necessário partir. Porém, quando todas as esperanças se esgotam e a sensação de que qualquer outro lugar no mundo é melhor do que aquele que estamos não há o que fazer a não ser ir embora.

Ir embora assim como o povo hebreu liderado por Moisés fez fugindo do Egito deserto a dentro. Atravessando o Mar Vermelho movido pela fé de chegar á Terra Prometida e não ser mais escravizados pelo Faraó. Assim como o homem do campo que plantou ano após ano e não conseguiu colher o suficiente para sua família e resolveu tentar a sorte na cidade grande. Tendo apenas a sua boa conduta e honestidade como alicerces para resgatar a sua dignidade e da sua família. Assim como quem retorna às raízes da sua origem como pregou Marcus Garvey aos decendentes africanos na Amércia para retornar à África e construir um novo mundo longe do racismo e de injustiças sociais. Devolvendo a prosperidade ao continente que é vítima do descaso da economia mundial e sobrevive em meio as condições precárias que lhe são impostas.

Mesmo com todos esses desafios o processo de libertação de um povo não se resume apenas nas barreiras físicas. Ainda mais quando se fala em um mundo globalizado e com satélites atualizando os GPS's constantemente. E o que vem depois dessa fuga? O que o povo de Moisés sentiu quando estava sem alimentos e tinha um vasto deserto árido a perder de vista pela frente? O que o agricultor mais humilde sente quando se vê numa selva de pedra onde não há mato para roçar? O que o povo negro sentiria se voltasse para a África e tivesse que superar as dificuldades para reconstruir todo o continente africano e reescrever a sua história? Arrependimento? Não. Medo? Talvez. Desconforto? Com certeza. Então me diga o quão confortável era aqueles lugares onde a última coisa que se tinha era autonomia sobre o próprio viver...

E atualmente será que temos tanta autonomia assim? Hoje as condições geográficas são bem diferentes comparadas com as daquela época. Muitas vezes a sensação de prisão é ainda maior, pois os convívios sociais são demarcados pelo capital e não mais pelas afinidades com o seu grupo. E a única forma que encontramos de amenizar essa dor muitas vezes está infelizmente no ato de consumir. Por mais que sejamos explorados todos os dias ainda nos contentamos com o simples fato de comprar mais do que já temos para satisfazer as nossas frustações do cotidiano. A "liberdade" para consumir nos anestesia de tal forma que voltamos todos os nossos esforços para ela com a finalidade de mostrar a nossa autonomia aos outros através do nosso poder de consumo. Entretanto aqueles que não tem condições de consumir ficam em situação ainda pior e não conseguem fazer mais do que cuidar da sua subexistência.

Nossos pais foram mais rebeldes ao decidirem fugir de quem os escravizavam, nós porém nos contentamos ao afrouxarmos as nossas algemas. E ao invés de enfraquecer a mão que nos chicoteia a deixamos ainda mais forte. Ter coragem para sair desse comodismo é necessário! Mesmo que haja muitos lobos para nos encurralar eles nada poderão fazer diante da força de um rebanho inteiro. Não podemos nos contentar com tanta injustiça. Confiar em Deus também é importante, mas antes de Moisés abrir o Mar Vermelho foi necessário que o povo hebreu decidisse abandonar o Faraó. E deixar não só senhor escravocrata para trás mas também seus valores. O êxodo tem que acontecer também de fora para dentro para nos abdicarmos dos valores superficiais do capitalismo. Se tivermos determinação o bastante faremos daqui a nossa "Terra Prometida" e aí sim colocaremos fogo de vez na Babilônia.


Aí gostou do texto? Que tal curtir a nossa página no facebook? o/