Colares e Pingentes

Ok. Não devemos atribuir a nenhum objeto o poder ou responsabilidade de guiar o nosso destino, nos eximindo de toda e qualquer responsabilidade pelas nossas ações. Porém, eu sempre tive uma ligação muito curiosa com os meus colares e pingentes, tanto é que eu poderia traçar um paralelo entre eles e as fases da minha vida. Sendo assim, vou tentar compartilhar um pouco dessas histórias dentro daquilo que a minha memória permitir. =]

O primeiro colar que eu tive se não me falha a memória ganhei aos 11 anos, o pingente era o brasão do Corinthians. Era muito legal andar com o símbolo do time do coração pendurado no pescoço como uma demonstração de carinho ainda que inocente, mas tudo isso veio a acabar quando um colega de sala torcedor de um time rival cortou o colar com uma faquinha daquelas feita de apontador de lápis. A lição que ficou foi de que os setimentos (por maiores que sejam) não se resumem apenas em demonstrações públicas, e que atitudes durante a sua vida são mais importantes que tudo isso.

Já o segundo colar era também daqueles baratinhos de R$ 1,99, era um crucifixo, que me ajudou a esquecer a perda do primeiro colar. Esse eu joguei fora depois de um tempo devido ao desgaste (o suor das atividades físicas ajudaram nesse processo rs). Essa era uma época que eu frequentava bastante a Igreja do bairro e que a comunidade católica ainda buscava um ânimo para reagir ao movimento evangélico, entretanto, o tempo passou e hoje eu vejo que o não houve êxito nessa caminhada. Infelizmente? Talvez... Essa época marcou o nascimento da sementinha do senso crítico que brotava dentro de mim sobre as coisas e o mundo.

O terceiro foi uma corrente, sem pingente algum, que ficava pendurada parte da frente da calça e enganchada no bolso detrás formando  um "U" na lateral da coxa esquerda. Pode parecer engraçado, mas era assim que era moda na época kkk. Aí o acessório já ganhou um novo sentido, a intensão era demonstrar que não se era mais criança e que contrariar o óbvio é muito mais legal, além do que é o combustível que move todo adolescente. De um jeito meio desajeitado era a minha maneira de chamar sim a atenção das meninas, confesso. E pior que dava certo! Elas sempre me perguntavam: "Por que você usa essa esse negócio estranho na perna?"

Depois, aos 14 anos eu quebrei todas as barreiras da discrição e meio que chutei o balde. Agora a minha corrente era maior e impunha muito mais respeito. O pingente era uma verdadeira medalha que tinha a circunferência quase compatível com a palma da minha mão com a grafia Hip Hop. Sim, eu era estiloso! Além do estilo havia uma ideologia ao ostentar com força o meu estilo musical predileto. Era preciso mostrar para mim mesmo quem eu era e estar apto para responder as perguntas que me faziam sobre o rap e tudo mais. A toca preta, a calça larga e tênis também exagerado completavam o visual tido por algums como agressivo, mas por outros nem tanto. O colar eu perdi não sei por onde, coisas da juventude também... rs

Já um pouquinho mais velho resolvi mudar do metal para a cerâmica. A escolha se deu por acaso ao visitar uma banca na feira hippie do Centro de Convivência Cultural de Campinas. A banca me chamou a atenção por ter colares cerâmicos que eram concebidos com inspiração na cultura pré-colombiana com grande diversidade de formas, desde pingentes com traços minimalistas até um bisturi inca com uma figura mística esculpida na extremidade contrária da sua lâmina. Mas, dentre todos esses o que mais me chamou a atenção foi uma coruja com um olhar intimidador e ao mesmo tempo sereno que emanava sabedoria. Foi a primeira vista, não pensei duas vezes ao escolher o meu novo colar. Essa fase foi marcada por uma profunda busca interior e aprimoramento de vários conceitos. Um caso curioso que aconteceu foi quando acabei parado por um hippie peruano que se viu muito alegre ao encontrar um objeto que relembrasse a cultura do seu país tão longe do mesmo.

Depois desse eu ainda tive um outro colar de cerâmica, esse por sua vez para olhares desatentos se parecia bastante com uma prancha de surf, porém era uma máscara. Talvez fosse o ensaio de carranca só que mais amigável em tons de bege. E eu gostava da sua aparência justamente por isso: mesmo com a finalidade de espantar o mal que estivesse pela frente não se via um ódio no seu olhar, apenas um aviso como quem diz "o bem que eu carrego comigo é mais do que suficiente para enfrentar o mal que está lá fora". E assim foi, uma fase de muitas aventuras, descobertas e redescobertas. Esse período marcou o meu retorno para a casa dos meus pais, à Prefeiura de Monte Mor só que agora com um cargo efetivo e também aos estudos já que ingressei na faculdade. Reaprendi a valorizar as coisas simples que já tinha vivido apesar delas não terem mais um aroma de nostalgia.

E por fim o meu atual colar. Se fosse por mim é bem provável que esse também seria de cerâmica, entretanto, na feira hippie de Campinas as bancas que trabalhavam com esse material sumiram e nenhuma outra me chamou atenção até que algo especial aconteceu para me fazer mudar de opinião. Num belo domingo de Sol de final de inverno no qual estava em ótima companhia S2 eu me deslumbrei com um trabalho diferente. Nele todas as peças eram feitas de material reciclado, no caso: papel. Achei incrível a ideia de atribuir um valor de "joia" para aquilo que viraria lixo na mão de muitos e adquiri um colar com grande felicidade. O colar que escolhi é formado por um círculo maior (ø 4cm) e outro menor (ø 0,5cm), que é resultado de um tubo achatado feito de páginas de revista enrolado entorno de si próprio. Tem uma corda de algodão passa pelo vão central e por um pedação de bambu de 2cm que serve para restringir o movimento do pingente. Apesar de ser um objeto de um valor material pequeno eu nunca tive um que fosse tão desejado. É sério! A maioria das pessoas o tocam e querem saber se é realmente apenas papel.

Eu gostava muito de colares de cerâmica porque eles mais cedo mais tarde viriam a quebrar ao cair no chão, e quando eles quebravam começaria um novo ciclo, porém não se sabia o dia e nem hora que isso viria a acontecer. Após essa fase de oscilações dentro de mim e na minha vida eu tive que me reformular para uma rotina e emoções mais constantes, e me vi com o desafio de não viver de forma tão monótona. Então, eu aprendi que não precisava esperar por tais momentos para me reciclar e que esse processo necessita de uma atenção constante. Se reciclar, refazer o ciclo e se reencontrar consigo mesmo é uma busca realizadora para quem entende o seu valor. Afinal, a vida nos aponta vários caminhos e muitos deles podem nos trazer lembranças/situações do passado, mas para lidar bem com elas você precisa deixar Luz por onde passou. Por coincidência ou não, alguns destinos precisam se reencontrar para tomar um novo rumo, somar o que aprenderam um longe do outro e continuar aprendendo sem que o aprendizado perca o seu sabor. Pode ser mais mágico do que se imagina... =]


Obs: 1- O artesão tinha um cartaz na sua banca com alguns mandamentos, são eles: #Reciclar, #Reduzir, #Repensar, #Reformar, #Respeitar, #Repartir, #Recusar, #Reaproximar, #Reutilizar, #Relembrar e #Redistribuir.

Obs: 2- Papel não é resistente à água. É, eu sei, porém ainda não aprendi muitas coisas e uma delas é nadar. rs